Cyberpunk derivatives

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https://en.wikipedia.org/wiki/Cyberpunk_derivatives

Grounded theory: a teoria emergindo dos dados

É interessante que o senhor tenha comparado o livro a uma obra jornalística. Trata-se de uma obra acadêmica, que se inspira no método da grounded theory, aproveitando técnicas da etnografia e da história oral. Porém, sempre acreditei que obras acadêmicas não precisam ser herméticas ao grande público. A democratização da universidade exige que procuremos, na medida do possível e sem censurar importantes contribuições que chegam rebuscadas, linguagens mais acessíveis a não iniciados nas suas especialidades. Além disso, a grounded theory preconiza que o pesquisador apóie suas análises nos dados que levanta, fazendo sua análise e teoria emergir desses dados. Deve-se evitar o encaixe dos dados em alguma teoria escolhida à priori, pois perde-se assim grande parte da capacidade de se produzir reflexões adequadas aos fenômenos novos. Ora, se a primazia da análise recai sobre os dados de entrevistas, observações, etc, é natural que se produza, ao menos num primeiro momento, uma obra de grande fartura descritiva e narrativa. Assemelha-se bastante a obras historiográficas, nas quais a análise vai embutida nas colagens da narrativa. Agora estou escrevendo artigos que são versões mais desenvolvidas das análises que começam a nascer no livro, e que dialogam com uma literatura com vocabulário mais especializado.

Guilherme Gitahy de Figueiredo

Fonte

Outras fontes

Experiência próxima, experiência distante e tradução

Essa foi então a trajetória e uma tentativa de perceber as visões internas ao Imperador da Ilha, assumindo o papel de brincante, momento em que tive uma maior proximidade das experiências dos sujeitos entendendo o que para eles significam, e tendo em meio a esse experimento, a possibilidade de conduzir uma análise antropológica, de chegar a conceitos de “experiência-próxima” e relacioná-los a conceitos de “experiência distante”. Segundo Geertz (1997), com base na classificação de Heinz Kohut, os conceitos de “experiência-próxima” são aqueles de concepção nativa, isto é, que seu significado e uso são construídos no meio social e por seus sujeitos, com diferentes significados, dependendo do contexto ou sociedade, como por exemplo, brincadeira; e o conceito de “experiência-distante” indica os conceitos que o etnógrafo ou demais cientistas utilizam para trazer à tona explicações sobre seus objetivos científicos, como por exemplo, ritual, cultura e religião. Com as estruturas conceptuais definidas, pode-se então traduzir um acontecimento ou comportamento, ou seja, a partir da identificação de conceitos de significação nativa, o etnógrafo arrola-os a ideias teóricas, traduzindo-os, transformando em palavras algo que foi observado. Entendo por “tradução” a capacidade de observar e transformar o observado por meio de uma análise em algo compreensível, de significação (DAMATTA, 1978). E é nisto que podemos resumir os objetivos de uma etnografia.

Uma experiência etnográfica: reflexões sobre as relações entre sujeitos em um
trabalho de campo
Paula Layane Pereira de Sousa – UEMA/BRASIL

Habitus precário

Nessa acepção, podemos entender o habitus primário como o padrão mínimo de participação na esfera social que confere a dignidade e as condições mínimas de reconhecimento e respeito social que possibilitam compartilhar da noção de cidadania em termos práticos e não apenas legais. Como veremos mais adiante, este é um ponto-chave de reflexão nas formulações de Souza para a compreensão da desigualdade brasileira, pois, como sabemos, um contingente enorme de indivíduos não compartilha desse habitus primário, estando situados abaixo do seu limite mínimo. Este “limite mínimo” do habitus primário, para baixo, Souza denomina habitus precário, entendido como

(…) aquele tipo de personalidade e de disposição de comportamento que não atendem às demandas objetivas para que, seja um indivíduo seja um grupo social, possa ser considerado produtivo e útil em uma sociedade do tipo moderno e competitivo, podendo gozar de reconhecimento social com todas as dramáticas consequências existenciais e políticas (SOUZA, 2006, p. 38).

 

O habitus precário representa a ausência de reconhecimento social e a ausência  das precondições de participação social com dignidade, refletindo e marcando um conjunto de disposições psicossociais não adaptadas ao contexto de participação social no mundo da produção capitalista (como trabalhador produtivo), assim como também na esfera pública (como cidadão pleno de direitos).

(…)

Souza estabelece a articulação desses diferentes autores e chega à sua formulação acerca da especificidade dos países de modernização periférica como o Brasil. Para ele, a distinção fundamental entre os dois tipos de sociedades modernas (centrais e periféricas) é a ausência da generalização do habitus primário nas sociedades de capitalismo periférico. Segundo este argumento, enquanto os países centrais universalizaram efetivamente as categorias de “produtor útil” e “cidadão”, as sociedades periféricas não o fizeram. Ao contrário, nas sociedades periféricas constitui-se um verdadeiro fosso moral, cultural, político e econômico entre as classes incluídas na lógica do mercado, do Estado e da esfera pública e um enorme
segmento de inadaptados, de excluídos ou de desclassificados sociais, que vieram
a formar uma “ralé” estrutural.

Essas pessoas, que vivem sob o habitus precário, não participam do contexto valorativo de fundo da sociedade, da “dignidade” referida por Taylor, que é condição para a possibilidade de efetivo compartilhamento da ideia de igualdade. Não compartilhando da dignidade básica da sociedade, e do reconhecimento social correspondente, se torna inviável a esses indivíduos serem reconhecidos como iguais e usufruírem das conquistas da igualdade. Mesmo considerando as previsões legais sobre a igualdade fundamental entre os indivíduos, esses segmentos sociais são relegados à invisibilidade social.

http://www.ipea.gov.br/ppp/index.php/PPP/article/viewFile/168/181

SUBCIDADANIA, DESIGUALDADE E DESENVOLVIMENTO SOCIAL NO BRASIL DO SÉCULO XXI
Cleyton Domingues de Moura

Quem paga a banda escolhe a notícia

Interessante perceber como os telejornais se relacionam com os seus patrocinadores (os anunciantes que exibem seus comerciais no intervalo do jornal). Por exemplo, hoje, assistindo a Globo News, passou durante o intervalo o comercial da Bradesco Seguros. Nesse comercial, um sujeito andava entre os andaimes de um prédio em construção falando que é melhor se precaver e fazer um seguro do que remediar. Ele relatava riscos comuns, como uma churrasqueira que pode lhe queimar, um infarto durante o sono, uma queda que pode quebrar sua perna. Assim que o telejornal volta, as notícias do bloco se relacionam com a morte de uma idosa e com o óbito de uma criança que supostamente caiu da janela de um prédio residencial. Queria ter inocência o suficiente para achar que o patrocinador do telejornal não influenciou essa sequencia de notícias. A ideia de risco, relatada tanto no comercial como nas notícias que a seguiram passavam uma mensagem: da criança a idosa todos estão expostos ao risco e o melhor é providenciar seu Seguro Bradesco. Fica então uma pergunta, até que ponto quem paga a banda não escolhe a notícia?

Acumulação por espoliação e colonialidade do poder

“Tudo indica que a “acumulação por espoliação”, cunhada por David Harvey para caracterizar “o novo imperialismo” e sua combinação estrutural de mais valia absoluta e mais valia relativa (para mantermo-nos nos marcos teóricos marxistas de Harvey), embora seja um arcabouço teórico necessário para compreender o que vem se passando, é insuficiente se ignorarmos a colonialidade que atravessa o sistema mundo desde seus primórdios até hoje. Uma história de larguíssima duração parece estar sendo agenciada por populações originárias, por camponeses que se apropriaram das terras como espaços de vida e liberdade, escapando do latifúndio, e ainda por populações negras que fizeram nospallenques/quilombos/cumbes uma história e uma geografia de liberdade, numa região marcada pela escravidão, pelo latifúndio e pela monocultura. Clamam por uma análise crítica que esteja à altura da sua criatividade e que supere uma sociedade que reduza o mundo à mercadoria e que não mais reproduza a colonialidade do saber e do poder que desperdiça essa rica experiência humana.”

Colonialidade do poder e os desafios da integração regional na América Latina

Carlos Walter Porto-Gonçalves e Pedro de Araújo Quental

http://polis.revues.org/3749?lang=pt